Teorema de Kahneman-Rosling: aprenda a filtrar
Em um mundo que nos enche de informações o tempo todo, a moeda mais cara que existe (o tempo) é gasta de modo que nem sempre nos agrada. Atire a primeira pedra quem, após ler alguma coisa, ver algum filme ou acompanhar algum conteúdo, não disse em seguida “perdi esse tempo de vida para nada”.
Todos já estivemos lá algumas vezes.
Porém, há um alento bom para você que abriu essa edição da RefleCenários: além de te poupar duas leituras, iremos te trazer uma reflexão importante sobre como filtrar melhor o tempo e tomar melhores decisões.
Tá, pra não dizer que tudo virá de mão beijada, as ideias vão demandar certa prática sua - mas já vai ser mais rápido do que bater cabeça e repetir a frase decepcionante do primeiro parágrafo.
Eis aqui o lado Kahneman
Rápido e Devagar, de 2011, é um livro que abre uma tese bastante interessante, que é a de que o ser humano tem dois lados no mesmo cérebro. O primeiro desses lados, que lida com o processamento rápido de informações, não para um minuto sequer para analisar as coisas antes de emitir respostas. Já o segundo, é aquele lado que realiza paradas para analisar as informações antes de tomar decisões.
Na prática, usamos mais o lado rápido do que o lado devagar, na imensa maioria das decisões. Mas não há nada de errado nisso: é com esse lado do cérebro que respondemos alguma pergunta no trabalho, que mudamos de faixa no trânsito se estivermos atrasados e quisermos chegar mais cedo e até que recusamos algum panfleto na rua. Sim, 95% do tempo é com esse “lado” do cérebro que vivemos.
Porém, não é porque apenas na menor parte das vezes usamos o segundo “lado” do cérebro que ele não deve ser utilizado. É aqui que decidimos sobre ficarmos ou sairmos de um emprego, sobre uma mudança de casa, alguma estratégia para conseguir avançar no trabalho e tantas outras questões que lembram que a vida pode ser um enorme jogo de xadrez.
Possivelmente ficamos apenas 5% do tempo aqui, mas as decisões aqui tomadas certamente impactam em muito mais do que isso.
E aqui está o lado Rosling
Factfullness é uma obra mais recente, de 2019. Sua proposta é tão simples quanto fascinante: precisamos focar mais no fato como eles são, não nas interpretações que ramificam possibilidades que talvez nunca aconteçam. Parece que falamos grego, mas pensa aí nas últimas vezes em que você leu “urgente” ou “breaking news” na tela de algum jornal televisivo e, ao ver o tópico da discussão, pensou “mas o que tem de urgente aí?”.
De modos diversos e amplos essa obra nos faz refletir sobre como é possível perder muito menos tempo com supostas “informações necessárias para o fim do mundo” enquanto, ao mesmo tempo, continuar tendo substrato suficiente de informações para não ser um alienado completo.
Outra reflexão importantíssima dessa obra é que, no fim das contas, pouquíssimas são as informações que realmente movem o mundo, sendo que parte relevante do conjunto do que nos bombardeia diariamente com informações é pouco ou nada agregador.
Como as duas pontas se encontram?
Grande parte do tempo passamos analisando banalidades ou pelo menos decisões que não demandam tanta profundidade assim e, por coincidência, uma parte relevante da programação que “acompanha tudo” é formada por assuntos que não necessariamente trazem desenvolvimentos relevantes. Acredito que você já teve o estalo que tivemos para escrever essa edição.
Em todo caso, como aqui ninguém é obrigado a nada (nem a adivinhar qualquer coisa), fiquemos todos na mesma página: você só deveria utilizar sua parte analítica do cérebro para o que realmente vier a mudar sua vida de alguma forma, porque todas as outras coisas apenas irão te queimar neurônios sem entregar resultado relevante.
Não se trata de algo que se começa da noite para o dia ou que, após ler essas linhas, já fica automaticamente pronto para uso. Mas, a partir de agora, lembre-se sempre: pense sobre como alguma “grande novidade” noticiada como urgente realmente impacta sua vida e, caso seja essa a questão, procure a fonte original.
Como bem apontado, é o tipo de coisa que demanda prática e, eventualmente, até mesmo a leitura das duas obras para te ajudar a ilustrar o que seriam de modo mais aprofundadas as duas teses desses livros.
Mas você já pode começar agora mesmo!
O que vale refletir aqui?
Use com parcimônia seu tempo com o que parece apenas te fazer ocupado. Nem sempre uma pessoa ocupada está sendo produtiva, mas alguém que parece “sem trabalho” pode estar, na verdade, muito mais bem informada e utilizando informações de bem mais agregadora do que quem “sabe de tudo”.
Estar ocupado não é ser útil. Nem para si, nem para o mundo. Execute o Kahneman-Rosling e agradeça a si mesmo no futuro pelo tempo poupado com o nada!